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Domingo, 21 de Outubro de 2018

O Clown que ri do público

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Escrito por Alexandre Cartianu Qua, 13 de Outubro de 2010 17:25

ArtigoClown7-AlexandreCartianu

foto: divulgação

Hoje, o jornalismo brasileiro deixa de debater questões de grande interesse público para acompanhar o caso de um artista. Este artista em questão, já famoso por seu constante trabalho na televisão, é – por acaso – um Clown. Mas será que os Clowns estão mesmo chegando lá?

Estou me referindo ao ator Francisco Everardo Oliveira Silva, humorista brasileiro, mais conhecido pelo nome “Tiririca”, autor e cantor de músicas de grande sucesso no país, representante da tradição circense do nordeste brasileiro. Palhaço de formação, popularizou nos pequenos circos de barraca seu nome artístico, dado pela mãe quando o filho, de forte personalidade, se zangava. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Tiririca_(artista)

Ora, se vamos falar de Tiririca, vamos refletir sobre seu caso, sua difícil situação atual. Eleito deputado federal em outubro de 2010 para, finalmente, resolver sua situação financeira para sempre, e ajudar sua família e amigos, o artista vê agora ameaçada a sua difícil conquista, por um detalhe legal: ele poderia mesmo se candidatar com a instrução que tem?

Vale a pena comentar a difícil conquista de Francisco, talvez a principal de sua vida artística. A impressionante eleição do candidato-personagem pelo estado de São Paulo (1.348.295 de votos, ou 6,35% do eleitorado do país) surpreendeu todo o país, ou pelo menos aqueles que não compraram um dos quase 1,5 milhão de CDs vendidos com apoio de diversas rádios e inúmeros comerciantes de Juazeiro e Pernambuco. No repertório, sucessos como “Florentina”:
http://www.youtube.com/watch?v=gIDyetR65JE

Uma popularidade conquistada durante muitos anos de trabalho, muitas vezes enfrentando situações humilhantes, não o capacitaria para o cargo de deputado federal? Por que questionar, agora, a formação de Francisco, um dos milhões de brasileiros que, como o presidente atual, não domina seu próprio idioma?

Imaginamos que ele, Francisco, não esteja gostando desse questionamento. Fato é que houve a denúncia, e agora o recém-eleito deputado precisa responder à sociedade se sabe ler e escrever, como exige a lei eleitoral. Será que o candidato está vendo a fortuna de rendimentos do cargo desaparecendo aos poucos?

Francisco possui formação artística sólida, não reconhecida por um preconceito que atinge as famílias circenses há séculos. São famílias de caráter nômade, condição de marginalidade social e trabalho quase sempre informal e independente. Um profissional circense não possui registro profissional, não tem direitos trabalhistas, e geralmente nem tem contrato escrito com seu empregador.

A formação de um artista circense também encontra barreira na maior parte das escolas. A criança convive com o trabalho de seus pais dentro do ambiente profissional, iniciando-se na prática das artes circenses por volta de seis anos de idade. Com 11 anos, a criança já é um pequeno artista circense. Sua casa, o circo, é a escola, e sua educação é quase inteiramente familiar, oral por tradição, continuada e voltada para o trabalho.

Não há a opção de aprender errado, nem é possível desistir da escola. No circo, a sobrevivência está vinculada ao aprendizado, e este sem dúvida foi bem empregado por Tiririca. Não é qualquer Clown que pode se gabar de um currículo como o de Francisco. Sucesso no teatro mambembe de rua, picadeiro circense, recorde de vendas no concorrido mercado musical brasileiro – e contrato com a Sony Music –, participação em vários dos programas de humor de maior audiência da TV nacional, quadros fixos de grande audiência, e presença constante na mídia na companhia de grandes humoristas do país.

Ainda assim, nada disso é suficiente para livrá-lo das suspeitas de que Francisco não foi alfabetizado, e apesar de seu imenso sucesso, mentiu ao declarar que sabia ler e escrever para ter sua candidatura aceita pela Justiça Eleitoral.
Apesar de um Clown famoso e bem sucedido, sua atual humilhação é provar a todo o povo que cumpriu a única exigência do país para a candidatura dos futuros parlamentares: em sendo brasileiro, saber o português.
 
Mesmo assim, não podemos deixar de lembrar que, embora ele tenha sido desonesto em sua declaração de candidatura, falsidade compreensível infelizmente em nosso país por ser prática comum, esse mesmo candidato, Tiririca, ou quem sabe Francisco, fez uma campanha no mínimo antipática.

Tiririca, como Clown, parece ter se esquecido diante de tanta fama sobre a importância que tem a opinião do público, e como esta deve ser respeitada. Sua campanha foi mais um quadro humorístico fixo na TV, uma cena cômica na qual o personagem, de cabelos brancos engomados, chapéu e roupas coloridas, troca planos de governo, as famosas promessas, por bordões e piadas.

O curioso é que tais tiradas cômicas somente divertem ao candidato, procuram conquistar a confiança do povo com confissões de despreparo, descompromisso e ganância pessoal. Tiririca gravou seus slogans em tom de escárnio, visivelmente. Não saber o que faz um deputado federal, confessar que está se elegendo para ajudar sua família, e anunciar “pior do que tá num fica”(risos), pode estar, sem dúvida alguma, de acordo com a democracia do Brasil, pela cabeça dos juízes do Ministério Público Eleitoral de São Paulo. E claro que, vamos todos concordar neste assunto: o exercício da política no Brasil é uma brincadeira, um teatro (farsa), um espetáculo, uma tragédia extremamente onerosa ao povo trabalhador.

O que não posso aceitar é a confusão entre trabalhar pelo riso do público, e ridicularizar o mesmo público utilizando uma campanha eleitoral que deveria ter algum respeito pelo voto, pela cidadania, pelas necessidades sociais representadas, em teoria, no mandato dos políticos mais populares ou mais votados.

ArtigoClown-AlexandreCartianu

foto: divulgação

Tiririca está divulgando o Clown no seu pior sentido popular, ou seja, como insulto ao eleitor, que sim, deve ver como “palhaço”, esse personagem de nariz vermelho, de fraca inteligência e aparência ridícula e patética. Este não é o conceito de Palhaço que defendo e estudo, não é o Clown que considero trabalho e profissão dignos, resumindo a difícil arte de fazer rir, representando séculos de produção artística.

O Clown não ri da platéia, não é este o seu objetivo. A platéia não vai ao espetáculo, seja aonde for, para ser constrangida. As pessoas vão a circos e teatros para divertirem-se. O Clown é o personagem que trabalha para conquistar o riso da platéia, deixando de lado seu orgulho e vaidade. O Clown não pode tornar-se o espectador de um público ridicularizado. Ao contrário, ele recebe para trabalhar e não para rir de quem o assiste.

Sejamos, portanto, honestos como platéia, reconhecendo que um Clown que confunde representação popular com mais uma esquete, eleição com piada, cargo público como trampolim para enriquecer e abandonar a realidade miserável do povo que o elegeu, é também um péssimo profissional. É um artista insensível e incompetente, que reconhece precisar de mentiras para sobreviver pois não consegue mais viver com um trabalho digno, como é o trabalho de um bom Clown.

Apesar de ter sido o mais votado deputado federal do país, é triste confirmar que também a maioria dos brasileiros é uma população que não possui acesso à cultura e à educação. Milhões vivem na miséria, sofrem todos os dias das necessidades mais básicas. Como poderiam então diferenciar em suas vidas o papel de um programa eleitoral do papel de um programa de humor?

É, como sabemos todos, uma vergonha a política do Brasil, nos seus escândalos diários e nos terríveis nomes que nos representam: tantos assassinos, ladrões, corruptos, e todo tipo de oportunistas. Por isso, contamos apenas com a consciência de nossa própria gente, nosso povo, e seu compromisso para com o país.

Contamos, enfim, com a consciência de um tal Francisco de Itapipoca, criador do querido Palhaço Tiririca. Mas, será que podemos confiar num Clown Público? Será que ele merece ganhar de nós mais de dez milhões de reais por ano (http://www.youtube.com/watch?v=882TU7jm82k), no cargo de parlamentar mais caro do mundo, para nos representar no Congresso Nacional? Ou o Clown será, agora, mais uma categoria brasileira de malandro?

Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Tiririca_(artista)
www.youtube.com
*Foto 1: http://www.letras.com.br/fotos/tiririca
*Foto 2: http://claudiomedeiros.files.wordpress.com/2010/08/tiririca.jpg
 

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