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Domingo, 21 de Outubro de 2018

A lógica da insensibilidade

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Escrito por Alexandre Cartianu Qua, 30 de Março de 2011 22:50

A realidade brasileira está criando um novo modo de ver a vida. É um olhar insensível e alienado, cada vez mais distante dos valores mais importantes e prezados pela modernidade. Enquanto o mundo inteiro pensa em soluções para resolver o distanciamento criado pela rápida evolução tecnológica, colocando a tecnologia a serviço do homem e do planeta, privilegiando o coeficiente emocional nas relações profissionais e familiares, buscando uma maior consciência e preocupação pelo bem estar do outro e pelo futuro das próximas gerações, preservando os recursos naturais através do consumo sustentável, procurando fontes de energia renováveis não-poluentes, nós aqui do Brasil fazemos o inverso.

Seria cômico, ou excêntrico, se dissesse respeito a um aspecto cultural do povo, mas é preocupante constatar que nosso comportamento invertido é criado e aceito pelo povo, ainda que anule a sua própria cultura, nacionalidade, inteligência e dignidade. Estamos aplaudindo diariamente a retirada de nossos direitos, a injustiça, a violência e a corrupção, assistindo com indiferença e considerando banais os desastres ambientais mais severos dos últimos tempos.

Nesse panorama, muitos comediantes abraçam a causa da insensibilidade, e banalizam através da Arte os problemas do povo, anulando o papel da Arte como expressão crítica do artista. Uma das mais importantes formas de crítica e mudança social na História da humanidade, a Arte está se tornando, no Brasil, um instrumento do poder, de conformismo social e alienação, cada vez mais distante da informação e da reflexão crítica.

Inúmeros são os exemplos! Vimos e votamos num personagem circense, Tiririca, que desapareceu depois de eleito. Nossas esperanças foram junto com a graça de uma campanha-espetáculo de um artista circense que, imaginávamos, pelo menos alguns de nós, representaria os interesses da classe artística circense no poder. O representante do circo no palco do congresso é, hoje, um autodenominado "sortudo", já chamado ex-palhaço, que já entrou comemorando o próprio aumento e separando a seriedade política da profissão que o tornou elegível. Suas entrevistas são marcadas pela evasão, ainda que apareçam sorrisos sempre que o assunto é a miséria do povo e as promessas eleitoreiras. (http://www.youtube.com/watch?v=OwGqlTr4VUA&feature=related)

Como o Sr. Francisco da Silva declarou nesse início de mandato, mediante um diploma concedido através do mais obscuro dos exames, o que um deputado faz ele aprenderá com os colegas. E o que um deputado ganha? É "legal" (R$ 26,7 mil mensais, "honestamente"). Recentemente integrado à Comissão de Educação e Cultura, que agora substitui às pressas a Lei Rouanet, imediatamente após aprovação nela de um projeto faraônico de Maria Bethânia para um blog (ou seja, gratuito!!!) de vídeos-poemas milionário, vemos claramente como o deputado de origem humilde e circense está priorizando o interesse e a necessidade de seus eleitores, e dos artistas circenses, depois que transformou-se em gente "séria".

O novo projeto que reformou a Lei Rouanet, aprovado pelo desconhecido e nobre deputado Francisco da Silva, é o Procultura (1), com o qual devemos ter redobrada atenção e cautela, diante da ilustre defesa do Ministério da Cultura em prol de Bethânia, menosprezando o caso que envolve R$ 1,8 milhão de reais, por alegar que a Lei Rouanet é apenas autorização de captação. Não é dinheiro garantido... Se é assim, então qual lei garante o investimento em Cultura? Existe alguma???

Será que, apesar de toda a fama, a carcará do incentivo brasileiro à Cultura, Bethânia, precisa ainda da justificativa a seu favor da recém-ministra Ana Buarque de Holanda, em nota de esclarecimento de seu ministério? E que defesa é essa, contra a qual milhões de artistas depositam esperança de, realmente, terem seus projetos patrocinados pela iniciativa privada através da renúncia fiscal? (Ver foto Foto: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2011/03/18/queremos-ser-maria-bethania-368929.asp)

Segundo a equipe de Bethânia, que também se conserva tão ou mais reservada quanto o deputado mais votado do Brasil, ambos famosos e figuras públicas representantes da Cultura Nacional, o blog vale tudo isso por ter uma enorme equipe envolvida (2). Fico "aliviado"!!! Então a beneficiada não é apenas Bethânia, mas também alguns amigos. Que bom!

Enquanto vemos Franciscos, Bethânias, e quem será a próxima personalidade famosa a ser eliminada do Big Brother Brasil 2011, do sofá direto para ensaios sensuais de revista, a vida do artista brasileiro declina dramaticamente para um conformismo e um pessimismo insensível e não-criativo. É grave ao ponto de ilustres escritores, como Luis Fernando Veríssimo, assistirem e escreverem sobre o BBB, enquanto desastres naturais se sucedem, lavando a vida de milhares de pessoas (além de outros milhares de assuntos mais interessantes que os de Pedro Bial)!

Imagens terríveis entraram para o rol de curiosidades da mídia: enquanto tsunamis dignas de Hollywood denunciam o desequilíbrio climático do planeta, enquanto o Rio de Janeiro sofreu com enchentes e mortes, o governo brasileiro aprova secretamente a destruição da Amazônia com a Usina Belo Monte, um atentado contra a vida de diversas tribos e culturas indígenas, por uma política comercial na contramão de todo o planeta. Aqui em Campinas, a história se repete: o prefeito deseja terceirizar a Saúde, a Cultura, a Educação e o Esporte, e a maior parte da população não se manifesta, como de costume, diante deste imenso absurdo. Conformismo total.

Providos de uma arma – talvez a única – privilegiada que é o humor, eu esperava dos artistas brasileiros alguma reação ou iniciativa organizada em suas produções, algo que pudesse levar ao povo a consciência de que precisamos mudar agora, ou ao menos nos sensibilizar diante de tantos absurdos. Vejo vingar, entretanto, apenas a Arte como comércio, que ainda precisa ser "apoiada" pelo Procultura, ao invés de ser, como é direito constitucional, GARANTIDA por investimento e política pública para o povo. A lei de renúncia fiscal para a Cultura não aplica um tostão na Cultura, mas sim deixar de desviá-lo dela! Infelizmente, esta é atualmente a única política cultural no Brasil.

A Arte produzida tornou-se muda, cada vez mais alienada, que banaliza a realidade e cria fantasias e fugas, iludindo ao invés de conscientizar, formando um público que se convence de que Artista, talvez agora, seja tudo ladrão e oportunista mesmo, descaradamente. Quem é competente se cala, quem é influente se omite. "O mundo precisa de poesia": este é o nome do golpe assinado por Bethânia. Em notícia recente, devido à impopularidade da aprovação do projeto, o orçamento do blog milionário teve um corte de gastos, de R$ 440 mil (3).

É uma ironia que esse grande "esforço econômico" da equipe de Bethânia seja tão semelhante ao corte de gastos ("corte na carne") que o governo tem prometido fazer desde 2002 em relação à maior carga tributária do mundo. Será que com apenas R$ 1.356.858,00, Bethânia terá condições de criar seu blog de poesias para o mundo? Espero que sim! Pelo menos, agora o Ministério da Cultura está convencido de que calar os críticos só lhe custou R$ 440 mil, ainda que para Ana de Holanda, o valor do blog não tenha "nada de mais" (4). Quem te viu, quem te vê! Minha crítica é justamente sobre a apatia do brasileiro ao aceitar que todo o seu dinheiro e seus direitos não signifiquem nada para este governo! E as vidas, valem alguma coisa ou são somente números no jornal?

Notícias como esta, e ainda mais os grandes desastres ambientais, deveriam chocar a população e provocar uma reação urgente e politicamente consciente, em defesa de nossos direitos e da vida. Mas no Brasil, essas e outras notícias absurdas rendem apenas mais uma piada nos programas de humor, agora jornalísticos, e assim tudo passa, e é esquecido imediatamente.

O povo ri, não acredita que os impostos aumentaram, que os criminosos são soltos, que a inflação voltou, que a floresta é derrubada, que a água é poluída, que tantos perderam suas vidas, que o caos impera e a Cultura morre. Este país não é sério, mas não encontro a graça em nenhuma parte de nossa terra. Rindo mesmo, só os Tiriricas e as Bethânias, que pegam, matam e comem. Agora só falta a Google comprar o blog da Bethânia por 1,4 milhão!!!

Aonde está a irreverência do Clown, que no Circo foi, entre tantas coisas, o porta-voz do povo??? Que o Clown seja sensível sempre, e não somente nos trabalhos que realizam em hospital.

Alexandre Cartianu é dramaturgo e diretor-fundador da
Troupe Per Tutti de Comédia Clássica

Fontes:
1. Procultura: http://blogs.cultura.gov.br/blogdarouanet/projeto-de-lei/
2. http://www.sidneyrezende.com/noticia/124859+nao+e+simplesmente+um+blog+diz+assessoria+de+maria+bethania
3. http://musica.terra.com.br/noticias/0,,OI4998835-EI1267,00-Blog+de+Maria+Bethania+sofre+reajuste+orcamentario+de+R+mil.html
4. http://www.correio24horas.com.br/noticias/detalhes/detalhes-1/artigo/para-ministra-da-cultura-aprovacao-de-r-13-milhao-para-blog-de-bethania-nao-tem-nada-de-mais/

 




está priorizando o interesse e a necessidade de seus eleitores, e dos artistas circenses, depois que transformou-se em gente “séria”.

O novo projeto que reformou a Lei Rouanet, aprovado pelo desconhecido e nobre deputado Francisco da Silva, é o Procultura1, com o qual devemos ter redobrada atenção e cautela, diante da ilustre defesa do Ministério da Cultura em prol de Bethânia, menosprezando o caso que envolve R$ 1,8 milhão de reais, por alegar que a Lei Rouanet é apenas autorização de captação. Não é dinheiro garantido... Se é assim, então qual lei garante o investimento em Cultura? Existe alguma???

Será que, apesar de toda a fama, a carcará do incentivo brasileiro à Cultura, Bethânia, precisa ainda da justificativa a seu favor da recém-ministra Ana Buarque de Holanda, em nota de esclarecimento de seu ministério? E que defesa é essa, contra a qual milhões de artistas depositam esperança de, realmente, terem seus projetos patrocinados pela iniciativa privada através da renúncia fiscal?
 

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