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Pesquisas - Curiosidades


PILHAS PARA PESQUISADORES E APAIXONADOS
PELO CIRCO BRASILEIRO

Por Alice Viveiros de Castro

A idéia desta coluna é apontar assuntos interessantes 
e que merecem ser mais estudado

O primeiro palhaço em terras brasileiras – Diogo Dias

Devíamos construir uma estátua, um monumento a Diogo Dias, o cômico gracioso que viajava com Pedro Álvares Cabral e que no Domingo de Páscoa, de tarde, resolveu tomar a mão dos índios e dançar com eles.
Eis o que nos conta Pero Vaz de Caminha:
“E além do rio andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante os outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem. Passou-se então para a outra banda do rio Diogo Dias, que fora almoxarife de Sacavém, o qual é homem gracioso e de prazer. E levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se a dançar com eles, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem fez ali muitas voltas ligeiras, andando no chão, e salto real, de que se eles espantavam e riam e folgavam muito.”
Diogo Dias fora almoxarife em Sacavém, o que quer dizer que ele já trabalhara administrando alguma propriedade real, ou tinha sido um cobrador de pedágio. Mas Caminha o identifica como homem gracioso e diz que deu voltas ligeiras, andando no chão e salto real. O termo gracioso era utilizado, nesta época, para designar os atores cômicos, os que faziam rir nas entremezes. Os dicionários mais antigos indicam histrião e bobo como sinônimo de gracioso, ou seja palhaço. No Tesouro da Língua Portuguesa (1871) , de Frei Domingos Vieira, encontramos a explicação “ o gracioso diverte excitando o riso por meio de ações ou ditos jocosos”. Salto real é o nosso salto mortal. Quanto às voltas ligeiras andando no chão é bem possível que fossem voltas de mão, rondadas e flics, que, atestam diversas gravuras, eram saltos muito comuns nas apresentações dos jograis e saltimbancos da época.
Diogo Dias foi uma figura importante neste início das relações entre portugueses e índios . Além de fazer a primeira festa do Brasil, logo depois da primeira Missa, foi designado pelo capitão Pedro Álvares Cabral para participar de diversas missões de contato com os índios “por ser homem alegre, com que eles folgavam”, como diz Caminha.
E foi assim com festa e folgança, ao som dos gaiteiros e dos tamborís, sob o comando de um palhaço que Pindorama virou Brasil. Quem dera a relação portugueses x índios tivesse sido sempre comandada pelos palhaços...

 

Os palhaços festejam a execução de Tiradentes

No livro de Vereações e Provisões (1787-1795) da Câmara do Rio de Janeiro encontramos o pedido de licença para a realização de um espetáculo em praça pública e para a saída de um bando de histriões como parte dos festejos pela execução de Tiradentes. Sim, em 21 de abril de 1792, atendendo às ordens expressas do Senado da Câmara do Rio de Janeiro a população acendeu luminárias e festejou a morte de Joaquim José da Silva Xavier, com comédias e foguetório.
O espetáculo foi realizado em terreno próximo à Igreja da Lapa dos Mercadores, muito provavelmente na rua do Mercado. Não sabemos muito sobre o espetáculo realizado, mas a descrição do bando no livro Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro de Vieira Fazenda, nos dá uma idéia de como atuavam os cômicos da época: “Compunha-se o tal bando de 3 figuras principais de entremez, o gracioso e dous barbas, o primeiro vestido de arlequim e os segundos enfronhados em negra camisola, burlescamente sarapintadas, tendo ambos à cabeça longo chapéu afunilado.”
Vieira Fazenda cita ainda a presença no bando da cômica Passarola, que foi provavelmente a nossa primeira palhaça. Há quem diga que os artistas faziam parte do grupo que se apresentava no Teatro de Manuel Luiz, uma das primeiras casas de espetáculo da cidade, e que ficava próximo ao local onde se realizou o espetáculo. No entanto, podemos supor que além dos artistas contratados da Ópera dos Vivos e do Teatro de Manuel Luiz, grupos de artistas saltimbancos de passagem para Buenos Aires e para as Minas Gerais, também se apresentassem na Corte.

alice.circo@montreal.com.br

 

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